Cláudio Raffaello Serzedello Corrêa Santoro, mais conhecido como Dj Raffa, lançou, pela coleção Tramas Urbanas - editorial direcionado à cultura periférica - seu livro intitulado “A trajetória de um guerreiro”, o qual vínhamos divulgando aqui no Cultura há uns meses. Tive a honra e o prazer de receber das mãos do próprio Raffa o livro autografado, que tem 504 páginas e relata as alegrias e tristezas da vida do dj e sua vivência no hip hop.
Além de uma autobiografia, o livro retrata o início do movimento hip hop na Capital Federal e sua posterior evolução, e conta algumas curiosidades da cena local. Um paralelo com o movimento paulista também é traçado e algumas alfinetadas são dadas.
Raffa, hoje com 40 anos de idade, dedicou metade de sua vida ao universo do hip hop. Assim como todos – ou quase todos - que se encontram nesse meio, ele também foi alvo do preconceito, porém, de um tipo diferente dos que habitualmente vemos. Raffa era muito criticado por causa de sua herança genética, já que é filho do maestro Cláudio Santoro com a bailarina Gisele, sobrinho de um grande físico nuclear e vindo de uma família de classe média. Segundo o próprio Dj, o preconceito vinha de todos os lados. Da periferia, por não ser negro nem morar lá. Da classe média, por frequentar a periferia e namorar negras. O sobrenome também pesa em determinadas circunstâncias. “Ao mesmo tempo que o Santoro abre algumas portas, fecha outras”, afirma. No entanto, Raffa encontrou apoio e passou a se sentir mais à vontade nos lugares mais simples. Aos poucos foi conquistando respeito nas duas direções, devido ao seu talento em produzir e à capacidade de interagir e apoiar pessoas e projetos.
Apesar de ser um livro cujo assunto principal é a história do Dj, o livro desempenha um outro papel tão importante quanto. O autor documenta artistas, grupos e fatos perdidos na memória da cidade e abrange o hip hop brasileiro, sobretudo o do DF, no período contemplado entre os anos de 1984 a 2003. Segundo ele, foi necessário parar nos relatos dos acontecimentos do ano de 2003, pois os últimos anos do momento no DF e no restante do país dariam espaço para a elaboração de outra obra, com dezenas de capítulos e centenas de páginas.
Uma figura das mais ilustres na cena nacional, Raffa é um dos poucos que pode se orgulhar de dizer que sua história se confunde com a do hip hop no país. Dentro da cultura de rua, já desempenhou os mais diversos papéis, tais como: b.boy, músico, disc-jóquei, produtor, educador e professor. Isto, sem dúvida alguma, o torna um dos mais influentes nomes do hip hop brasileiro.
Curiosidades
Como dito, Raffa relata não só a sua trajetória dentro do hip hop. Ele menciona sobre fatos ocorridos com os mais diversos personagens, especialmente do rap nacional. Para os fãs e ouvintes de rap, em especial os que acompanham o movimento desde os primórdios, o livro é uma oportunidade ímpar para que sejam entendidos certos fatos narrados nas letras de rap e conhecer pessoas que tiveram suas histórias cantadas nestas músicas. Certamente muitos que escutam a música rap se deparam com algumas incógnitas: será que essa história aconteceu mesmo? Será que realmente foi assim? E quem é/era fulano de tal? Pois bem, no livro muitas destas dúvidas são esclarecidas e quem o ler, certamente terá de escutar novamente todos os raps de antigamente para só então poder entender o que era cantado. Um bom exemplo do que falo, dentre inúmeros outros, é o mano Rogério, que o grupo Racionais MCs menciona na música “Fim de semana no parque” (“... uma bala, uma moto com dois imbecis mataram nosso mano que fazia o morro mais feliz. E indiretamente ainda faz, mano Rogério esteja em paz. Vigiando lá de cima. A molecada do Parque Regina...”). No livro, Raffa fala quem foi mano Rogério, como o conheceu e sobre seu falecimento.
Quem também nunca quis saber sobre o primeiro concurso de rap do DF? Sobre o surgimento e curiosidades dos grupos “Os Magrellos”, “Câmbio Negro”, “Baseado nas Ruas”, “Guind’Art 121” e “Cirurgia Moral”? Sobre a dupla Thaíde e Dj Hum, os rappers Gog, X, Rei e Dj Jamaika? Quem nunca teve intenção de saber sobre como surgiram e a quantas andam as equipes de som Terra Disco Show e Smurphies Disco Club? E as crews de break? E o programa Mix Mania, apresentado pelo Dj Celsão e que foi fundamental na disseminação do rap no DF? Todas essas curiosidades estão espalhadas pelas páginas de “A trajetória de um guerreiro”.
A polêmica do gangsta rap
Raffa fala em seu livro de forma categórica e com propriedade para relatar, criticar e mencionar determinados fatos, pois esteve presente e participou da ocorrência deles. Com o objetivo de ser claro, direto e na intenção de sua obra ser futuro objeto de pesquisa, ele não escondeu seu arrependimento em ter participado da produção da música “A minha parte eu faço”, do grupo Cirurgia Moral. No momento em que o gangsta rap atingia seu ápice, a referida música foi lançada no disco que leva o mesmo nome e provocou consequências até os dias atuais. O relato sobre o fato não é feito com a intenção de gerar mais problemas sobre o assunto, mas, sim, com a humildade de quem apenas expressa sua opinião pessoal.
Com declarações que incentivavam explicitamente a violência, a participação de Raffa foi considerada por ele mesmo um dos maiores erros – senão o maior – de toda a sua carreira. Ainda de acordo com o autor, o rap no DF encontrava-se em expansão e era duramente criticado por suas letras de teor forte. A referida música foi um prato cheio para que tais pessoas concentrassem suas críticas em cima dessa questão e as consequências da repercussão desse trabalho foram grandes. “Erramos quando não podíamos errar. Afinal, todos ali já tinham uma grande experiência musical”, conta o Dj em seu livro.
O gangsta rap sempre foi característico do Distrito Federal. Nesse estilo, quem não presta atenção nas letras e não as escuta até o final, realmente fica com a impressão de que existe um incentivo ao uso de drogas e à violência. Porém, as músicas em geral passam justamente a idéia ao contrário, como pode ser nitidamente observado na música “Gospel Gangsta”, também do grupo Cirurgia Moral e constante do mesmo álbum. Esta música, no entanto, foi considerada por Raffa como a melhor música do disco.
Segundo o livro, dentre os que faziam duras criticas ao estilo tocado e produzido no DF, estavam os paulistas. São Paulo sempre atacou o DF por conta do gansgta rap e as argumentações eram imensas. Por outro lado, Raffa faz questão de relatar que, curiosamente, na mesma época tais pessoas não disparavam suas críticas em direção ao grupo Racionais MCs, considerado tão gangsta quanto e com letras também de cunho violento.
A tristeza
Raffa, como não podia deixar de ser, relata o descaso que o Poder Público vem tendo com a herança deixada pelo seu pai, o maestro Cláudio Santoro. O maestro faleceu quando Raffa ainda tateava como produtor. “Tive uma grande depressão. Ele não viu nada. Fico pensando qual seria a reação dele... Mas Deus sabe o que faz.” As lições paternas são como armas na batalha: “Aprendi que o dinheiro tem de vir como consequência de um bom trabalho e não estar em primeiro lugar”.
Claudio Santoro, que era compositor, maestro e regente da orquestra sinfônica de Brasília, foi professor fundador do Departamento de Música da UnB (Universidade de Brasília). Faleceu em 1989, época em que exercia o posto de Regente Titular da Orquestra do Teatro Nacional de Brasília, atualmente a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro. Ao teatro mais importante e um dos cartões postais de Brasília, foi dado o nome do maestro em homenagem ao seu talentoso esforço e trabalho.
Apesar de tudo, o governo não tem manifestado apoio para com as obras deixadas pelo pai de Raffa. Grande parte do acervo está guardado no próprio apartamento da família, sem receber a conservação adequada a esse tipo de trabalho, o que vem deteriorando todo o resultado de muita dedicação à cultura do país.
Considerações
O livro foi lançado pela Coleção Tramas Urbanas, com curadoria de Heloísa Buarque de Hollanda e consultoria de Écio Sales. A Editora responsável pela obra é a Aeroplano.
Por: Fabrício, em 23/03/2009
